Entrei na livraria, no último dia 31 de outubro, e lá estavam todas as publicações assinadas por certo Carlos Drummond de Andrade reunidas em uma daquelas mesinhas centrais, pomposas, que chamam atenção para os escritores, assuntos e lançamentos da ordem do dia. Poesia, prosa, edições de tantos tipos, coletâneas, infantis, análises sobre. Achei de uma beleza bisonha, pois tudo me leva a crer que todo dia é um dia D. Nada contra as comemorações. Absolutamente nadíssima. Mas em quê Drummond não está? Em qual dia ele não está? Em qual noite? Qual pôr-do-sol não é Drummond? Qual tempestada? Qual quintal ele não habita?
Eu diria o que ele dissera: teu aniversário é um nascer a toda hora. Porque o poeta não sai do mundo sem deixá-lo impregnado. Porque o poeta não sai do tempo. Porque a palavra do poeta nasce e morre todo dia naquilo que existe, naquilo que não existe mais, naquilo que não existe ainda.
Mas para jogar o jogo, decidi escolher um poema, na última segunda: brincar e simbolizar. Tinha que ser um afinadinho com o meu momento. E como meu pecado é sempre excesso, nunca falta, poderiam ser vários. Optei por dizer assim:
Nascer: findou o sono das entranhas.
Surge o concreto,
a dor de formas repartidas.
Tão doce era viver
sem alma, no regaço
do cofre maternal, sombrio e cálido.
Agora,
na revelação frontal do dia,
a consciência do limite,
o nervo exposto dos problemas.
Sondamos, inquirimos
sem resposta:
Nada se ajusta, deste lado,
à placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
no exílio?
O incerto e suas lajes
criptográficas?
Viver é torturar-se, consumir-se
à míngua de qualquer razão de vida?
Eis que um segundo nascimento,
não advinhado, sem anúncio,
resgata o sofrimento do primeiro,
e o tempo se redoura.
Amor, este o seu nome.
Amor, a descoberta
de sentido no absurdo de existir.
O real veste nova realidade,
a linguagem encontra seu motivo
até mesmo nos lances de silêncio.
A explicação rompe das nuvens,
das águas, das mais vagas circunstâncias:
Não sou Eu, sou o Outro
que em mim procurava seu destino.
Em outro alguém estou nascendo.
A minha festa,
o meu nascer poreja a cada instante
em cada gesto meu que se reduz
a ser retrato,
espelho,
semelhança
de gesto alheio aberto em rosa.
***
Porque é disso que tenho me ocupado – em muitos e variados sentidos: o Outro.
O princípio e o precipício de tudo.
No tumblr, todo dia também é um dia D.

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